Cavaleiro cruzado mostrando devoção

Malha das Cruzadas

Armaduras de malha são peças que costumam sair bastante e, no geral, consistem em formas padrão como camisas — byrnie, haubergeon — e coifas. Mas para este projeto, padrão não é um adjetivo válido. o cliente, um colecionador que preza pela fidelidade histórica e qualidade, nos encomendou uma armadura completa de um cavaleiro cruzado inspirada na litogravura de Chevauchet retratando o último Grão-Mestre Templário, Jacques de Molay.

Malha das Cruzadas

Cavaleiro Cruzado

O século XI chega ao fim com um evento que seria o primeiro de uma série. A Primeira Cruzada de 1096 e a conquista de Jerusalém em 1099 inalguraram dois séculos de campanhas militares em nome de Deus, as famigeradas Cruzadas.

Muito se tem dito e escrito sobre as cruzadas, tanto mais nos tempos de agora quando teorias envolvendo segredos e mistérios de ordens de cavalaria medievais ganham notoriedade. De fato, mais de uma dúzia de ordens de cavalaria surgiram durante as cruzadas, as mais notórias sendo a ordem dos Templários, dos Hospitalários, dos Teutônicos e de São Lázaro, mas neste momento o que nos interessa são os membros militares destas ordens, os cavaleiros cruzados, sobretudo sua armadura.

Os séculos XII e XIII marcam o ápice do desenvolvimento das armaduras de malha na Europa Medieval. O cavaleiro cruzado que tivesse bastante dinheiro poderia se equipar com todo um conjunto de peças que incluíam:

  • Hauberk (túnica) de malha com mangas compridas, se extendia até a altura do joelho e às vezes além.
  • Coifa (capuz) de malha que no geral era integrada ao hauberk mas ao final do séc. XIII passou a aparecer como um peça separada. Normalmente a coifa apresentava uma faixa de malha que cobria o queixo e a boca, a venteira, que nos momentos fora de combate podia ser aberta para dar mais conforto ao cavaleiro ou ainda deixá-lo passar a cabeça pela fresta do rosto e pender a coifa da nuca, para mais conforto ainda.
  • Luvas de malha que no geral eram integradas às mangas do hauberk. O tipo mais comum eram as mitenes — luvas com uma cavidade para o dedão e outra para o resto dos dedos — mas no séc. XIII algumas luvas são vistas com uma cavidade para cada dedo. A palma da mão era de couro a fim de dar maior firmeza ao segurar a espada. No couro havia uma fenda que permitia ao cavaleiro passar sua mão e retirar a luva, para maior conforto quando fora de batalhas.
  • Calças de malha. Nesta época, calças (do francês chausses) civis eram grandes meias de tecido compridas a cobrir toda a perna e ficavam suspensas por cordões amarrados à cinta que prendia o cueiro (calção, a cueca medieval). Posteriormente elas seriam anexadas numa peça só, mas o termo no plural se manteve. As calças de malha, no início, eram simples pedaços de malha sobre as canelas e amarrados atrás com couro. Depois recebem uma proteção para os pés e no séc. XIII se tornam iguais à sua contraparte civil, cobrindo pés, canelas, joelhos e coxas, diferindo apenas no material: malhas de ferro.
  • Elmo. Uma grande variedade de elmos foram usados pelos cruzados (cônico, cervelliere, chapel-de-fer, ...), em especial temos os elmos cilíndricos de topo chato que durante todo o período das cruzadas se desenvolveriam nos diversos tipos de "grande elmo". Para saber mais sobre sua evolução visite esta página.

O cavaleiro cruzado, portanto, se enclausurava literalmente dos pés à cabeça em malhas de ferro. Soma-se o elmo, a espada, a lança, o escudo e o cavalo e temos o equipamento principal do cavaleiro para as campanhas militares.

Selo Templário

O Projeto

Durante a fase de concepção do projeto, o cliente demonstrou grande afinidade por uma litogravura do séc. XIX retratando Jacques de Molay, o afamado Grão Mestre Templário, portanto armadura completa de malha. O autor, Chevauchet, realmente fez um trabalho belíssimo, tanto na obra quanto na pesquisa, pois, embora não possamos usar sua litogravura como fonte (por ser do XIX) o desenho em si está em grande acordo com o que entendemos das armaduras do final do séc. XIII início do XIV, período no qual de Molay foi o líder templário. Sob a capa e sobrecota branca contendo a cruz vermelha dos templários podemos observar um enorme hauberk de mangas compridas descendo até a altura das canelas. Abaixo dele é possível ver as calças de malha com pés incorporados. Nos ombros, sobre a capa, notamos um manto de malha que possivelmente contém uma coifa a pender pela nuca. Percebe-se que esta descrição se enquadra no equipamento citado no quadro de cima. Uma ressalva entretando deve ser mencionada: um hauberk primoroso desse, que recobre o corpo todo, dificilmente deixaria de fora as mãos. Seguindo o padrão da época, uma mitene muito provavelmente seria anexada às mangas. A coifa separada está de acordo com as novas tendências do séc. XIV, mas o fato de deixar a cabeça de de Molay de fora implica que possui uma venteira.

Utilizando a litografia como inspiração e fazendo as correções apropriadas, começamos a produzir esta notável armadura de malha, que até então foi o maior e mais complexo projeto de malha que realizamos. Não, não há palavras para descrever o imenso trabalho que deu para confeccionar este hauberk de mangas compridas, com luvas integradas e quase da altura de um homem. Foram cerca de 36.000 argolas de 8mm de diâmetro, fabricadas e entrelaçadas uma a uma durante 3 meses.

Para "piorar" a situação, paralelamente recebemos de outro cliente a encomenda de um hauberk também do séc. XIII com coifa e luvas integradas e descendo até os joelhos. Este novo projeto deveria entrar na sequência, mas em algum momento o cliente descobriu que precisaria se mudar para a Espanha e, para melhor satizfazê-lo, tivemos que tocar as duas armaduras ao mesmo tempo. Era argola que não acabava mais, tivemos sorte de não enlouquecer... digo, enlouquecer mais. Contando os dois hauberks, as duas coifas e as calças, contabilizamos cerca de 90.000 argolas, 45kg de malha e por volta de 1250 horas de trabalho. Só esperamos que nossos clientes cuidem muito bem de suas armaduras.

Resultados e Fotos

No final das contas, todo trabalho foi recompensado. As duas armaduras ficaram muito belas e funcionais. O hauberk estendido causa por si só grande admiração, enquanto as calças e a coifa complementam o efeito. O segundo hauberk, com sua coifa integrada com venteira, mostra toda a eficiência de uma boa armadura sob medida. As mitenes ficaram bem ajustadas, permitindo movimentos completos de mão e pulso, bom agarre na espada e, quando fora de combate, deixam as mãos livres por meio das fendas nas palmas de couro, como deveriam.

As fotos das duas armaduras podem ser vistas na seguinte galeria.

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