O grande elmo é um dos mais conhecidos pelo público leigo, constantemente retratado em filmes e revistas sobre Idade Média, sobretudo no contexto das cruzadas. Trata-se de um elmo fechado, de formato aproximadamente cilíndrico e composto normalmente de 4 placas: 2 inferiores, 2 superiores e o topo. Por vezes aparece decorado com uma cruz de latão na viseira.
Neste projeto, reproduzimos um Grande Elmo típico do final do séc. XIII inspirado no Elmo de Dargen (circa 1280) atualmente no Museum Altes Zeughaus (Berlin), porém o fizemos sem a ocular em formato de cruz sobre a viseira, também comum na época.
O Grande Elmo iniciava seu desenvolvimento a partir do final do séc. XII com o elmo cilíndrico de topo chato e durante o séc. XIII receberia diversas modificações até adquirir a sua forma mais desenvolvida no XIV.
Preparamos uma animação para melhor ilustrar este processo evolutivo e servir de complemento ao texto:
Até cerca de 1180 existiam 3 principais tipos de elmo em uso, o de topo cônico, o de topo redondo e o cilíndrico de topo chato. Destes, o último é de nosso particular interesse no momento pois seria o precursor do elmo deste projeto.
A primeira melhoria que o elmo cilíndrico recebe é o protetor nasal, uma pequena placa de metal adicionada verticalmente à frente para proteger o nariz. Logo esta placa seria substituída pela viseira, uma placa maior que protegia o rosto e continha furos para permitir a visão e respiração.
Por volta de 1200 uma pequena placa guarda-nuca começou a ser vista incorporada à parte de trás do elmo cilíndrico. Com o tempo, esta placa passa a se expandir cada vez mais na direção da viseira, até que em 1220 o espaço entre elas desaparece completamente. O resultado é um elmo fechado, cilíndrico e de topo chato, o primeiro Grande Elmo da história.
Pela época em que surgiu, foi logo incorporado à armadura dos cruzados e começa a se tornar extremamente comum encontrarmos cavaleiros de cristo em selos de ordens e iluminuras de época portanto este tipo de elmo. Por ser o primeiro, este Grande Elmo é pequeno se comparado aos tipos posteriores e recobre apenas a cabeça, deixando o pescoço a mostra, protegido apenas pela coifa de malha.
Em pouco tempo perceberam que o grande topo chato era convidativo e pouco resistente aos golpes que vinham de cima. Sempre é preferível defletir o golpe no lugar de absorvê-lo e a última coisa que este elmo fazia era defletir os golpes lançados de cima para baixo. Para superar este problema, a partir de 1260 os grandes elmos recebem placas superiores chanfradas, reduzindo a área chata do topo e aumentando o ângulo de deflexão de colisão.
Por volta de 1280, a viseira, além de aumentar em tamanho para proteger o pescoço, passa e receber um vinco vertical com o intuito de melhorar ainda mais seu poder de deflexão. A placa da nuca se expande da mesma fora e o resultado é o tipo mais popular do Grande Elmo, bastante usado nas justas. Posteriormente, o topo chato seria trocado por um topo abaulado, como visto no Elmo de Richard Pembridge (circa 1375).
Este linha histórica lida apenas com os aspectos mais gerais e mesmo neste caso deixa de lado alguns formatos até populares do Grande Elmo, como o Pão de Açucar, e outros menos conhecidos como os de viseira móvel. Uma compilação mais aprimorada pode vir a ser assunto para um artigo e não cabe neste texto introdutório.
Nosso Grande Elmo foi construído em pouco mais de duas semanas por conta de projetos paralelos, mas no geral leva-se três dias contando com três artesãos em dedicação exclusiva. As fotos da construção podem ser vistas na seguinte galeria.
Uma das maiores dificuldades deste projeto foi gerar os moldes das peças apropriadamente. Cada chapa precisa ser cortada no formato plano para depois ser modelada, mas a pergunta é: Qual deve ser o jeito de cortar a chapa para que depois de modelada ela fique no formato correto? Algumas formas são simples de deduzir: para um cilindro corta-se um retângulo, para um cone corta-se um triângulo com um dos lados curvo. Mas as chapas superiores do elmo não são cilíndros nem cones, com o agravante que a cabeça humana, vista de cima, é uma elipse e não um círculo.
Para se obter um elmo perfeito, algumas técnicas devem ser aplicadas. A primeira é fazer em material maleável uma miniatura da peça, para poder recobri-la com papel e traçar os contornos do molde. Isso nem sempre é possível, principalmente em peças com partes esféricas, visto que o papel não consegue se deformar para cobrir uma superfície esférica. Um pouco de improviso e aproximações podem ser bons complemento nos casos críticos. Outra técnica é se utilizar de aparatos geométricos/matemáticos para traçar o molde. Com a experiência, fica cada vez mais fácil intuir os formatos apenas observando uma imagem, e com o apoio de ferramentas geométricas e conhecimentos de projeção as chances de um bom resultado aumentam. Para uma das placas do Grande Elmo tivemos de recorrer à computação gráfica para obter o molde ideal. A terceira técnica é, quando a chapa já cortada não encaixa como deveria, você "faz" encaixar. Ou seja, domine as técnicas de deformar, expandir e esticar o metal para corrigir um chapa defeituosa ou para obter formatos que nunca seriam possíveis no papel. A quarta técnica é a famosa tentativa e erro: se você fez e não funcionou, mude algo e refaça, um dia dá certo. Sendo honestos, neste projeto tivemos que refazer duas placas porque o resultado não atingiu o esperado, mas em projetos mais complexos por vezes temos que refazer uma mesma peça umas cinco vezes.
Ao final do processo, ficamos bastante orgulhosos com o Grande Elmo que construímos, tanto pelo aspecto visual, que conseguiu seguir a estética dos orgininais, tanto pelo aspecto funcional. O elmo ficou bastante sólido e resistente, vestiu justo e confortavelmente, com os olhos devidamente alinhados com a abertura ocular. As fotos dele pronto se encontram nesta galeria.
Já que estamos falando de Grande Elmos, no ano passado (2006) recebemos uma encomenda de um elmo deste tipo em miniatura, na escala 1:3. Para sua confecção não houve atalhos, fizemo-lo exatamente pelos mesmos processos que o de tamanho natural. Embora economizamos em material, o trabalho foi redobrado - mal havia espaço para martelar os rebites, e tivemos que miniaturizar certas ferramentas. Um pedestal de madeira com uma plaquinha de bronze dá o toque final a esta peça de decoração de elevado bom gosto. Pode-se ver as fotos do mini-elmo na seguinte galeria.
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